terça-feira, 3 de agosto de 2010

EDUCAÇÃO&PSICOLOGIA _ SÓ A VERDADE LIBERTA A CRIANÇA NO REAL


A morte não é um mito, mas um fato social que acontece a todos. Temos um corpo que nasce, cresce e morre um dia. Ele precisa ser alimentado e cuidado, mas a vida vai gradativamente tirando a força do corpo, até o seu definitivo findar.
A morte é um fato social cantado, pintado, escrito, referido. Podemos citar como exemplo, Mozart que descreveu a morte em música, tal como fez Domingos Bomtempo ou Franz Schubert, ao cantar a morte de uma donzela. Também El Greco na sua pintura na igreja de Toledo, Espanha: Enterro do Conde de Orgaz; Goya, durante o seu exílio em Bordeaux, desenha a sua morte, e Picasso, nos anos 30 do Século XX, representa a desaparição de milhares de seres humanos no seu imponente Guernica. Goethe foge da ideia no seu magnífico Faustus, Freud analisa os sentimentos que resultam da morte no seu Mourning and Melancholy de 1916, Delumeau fala do medo que causa, nos seus textos assim como Dante na Divina Comédia de 1302, entre tantas obras magníficas que de modo geral, são criadas por adultos que tentam falar da sua subjetividade perante a morte, esquecendo talvez da visão libertadora da criança...
Então, quem já falou ou fala, da dor da criança perante a agonia presente na ocasião da morte dos seus adultos? Quem refere a análise do comportamento dos mais novos, perante fatos que não lhes são explicados mas que acabam por roubar, sem eles saberem, as pessoas queridas, serenas e brincalhonas, que os acompanharam durante um curto espaço de tempo que é a sua vida?
A morte pode ser cantada, desenhada, explorada, divinizada e elevada ao amor eterno. Contudo, o fato de uma criança observar a passagem da sua pessoa amada, com inocência e carinho, da atividade ao repouso obrigatório, ao não se movimentar, é tudo o que o adulto, que nem pinta nem escreve, é incapaz de explicar...
Há que pense que os mais novos não entendem. Se assim o for, exatamente por isso, deve-se explicar, contar, falar, lembrar, pedir ajuda para organizar o espólio, e, especialmente, chorar juntos. Neste texto, relato a minha inquietação de ter visto meu filho menino não saber o que se passava com seu avô. Vi-o pedir para ser levado a olhar o rosto do avô, e assim o observar e depois calar. Certamente que, dentro da epistemologia dos seus sentimentos, dos seus valores de ser humano muito novo, a passagem da vida do seu avô para a morte, não tinha lógica. Provavelmente lhe parecia um roubo sem explicação. Era o roubo do seu brinquedo preferido, da pessoa que o acarinhava, com quem passeava,o seu cúmplice nas guloseimas proibidas.Um adulto seu amigo e tão amado, que chegava ao ponto de ser objeto das suas brincadeiras de criança arteira. Agora tudo mudara,a agonia da perda era real. Com que palavras eu poderia agora explicar que o futuro com essa pessoa havia acabado? Como dizer que o ser humano passa de matéria a memória ritualmente cultivada ao lembrar o que fizeram juntos?
Ele ficou silenciosamente admirando o pálido e frio rosto do avô. Seu comportamento era calmo, sereno, de um não adulto, que percebeu que chorar não adiantava mais, mas dar o seu silencioso adeus sim!
E, para minha surpresa, ele ficou bem, e colaborou com sua quietude por todo o tempo do velório.Vencida a curiosidade de como era a morte, o meu menino não mais falou sobre o avô, ele já sabia porque eu chorava e o que me gastava a alma em profunda tristeza.
A morte e a vida são temas que as criaças não sabem entender porque os seus adultos não lhe sabem explicar. Perante a morte há um vazio. Não é por acaso que Alice Miller(nascida em 1923,é uma psicóloga conhecida por seu trabalho em maltrato infantil e seus efeitos na sociedade bem como na vida dos indivíduos)em 1998 diz que a verdade te há de te tornar livre. Frase do título do seu livro "Como ultrapassar a cegueira emotiva e desenvolver na infância a semente do adulto". Semente porque ninguém quer que a criança saiba entender o que o adulto acumulou no seu saber. Semente, porque fica na sua memória pessoal para o dia em que precisar de o usar. Livre, porque o mais novo passa assim, a ser parte das decisões de família. Família que está a viver um drama e que aprende que só unida, consegue suportar.
Gostaria que estas ideias, retiradas da minha história pessoal servissem de apoio para os adultos que ainda se enganam quando pensam que a criança nada percebe, que de nada adianta lhe falar sobre o mais doloroso e complexo ato da vida, o desaparecimento de um familiar muito querido.
Penso que uma criança não deve ser afastada do real. O adulto deve entrar nessa realidade com ela de mão dada. Foi o que meu filho me ensinou, como tanta outras crianças são capazes de ensinar a tantos adultos, que é apenas o sabe ser e sentir sem complicar.
A morte de um ente querido é uma realidade difícil. Essa que se pode cantar, desenhar, analisar, romancear, como referi ao começo do texto, mas nunca falar naturalmente quando acontece conosco.
Enfim, as crianças podem nos dar as lições que ainda devemos aprender.

Fonte: Imagens e pesquisas Internet
Resenha: Rhyshy

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