quarta-feira, 9 de junho de 2010

***LITERATURA&ARTE*** _ DOIS LIVROS DOIS AUTORES EXCELENTES

Caros leitores do Almanaque da Mulher Contemporânea, temos aqui dois livros, dois autores, duas excelentes histórias bem diferentes, mas com algumas coisas em comum. No centro das tramas a família.

O GRANDE JOGO DE BILLY PHELAN ( William Kennedy )
==> Em O grande jogo de Billy Phelan a família propriamente dita e a família mafiosa.
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DESILUSÕES DE UM AMERICANO ( Siri Ustevdt )
==> Em Desilusões de um americano as memórias de um pai morto abrem caminho para a família, enfim, se conhecer e se reconhecer.
Há outros traços em comum, veremos adiante, mas caso a escolha por um dos títulos for inevitável, caro leitor, opte por Desilusões de um americano, sem a menor possibilidade de arrependimento.

De acordo com Luíz Horácio Rodrigues,crítico literário, escritor, jornalista e professor de literatura, tanto num quanto noutro estão disponíveis fartas doses de imaginação e criatividade

Isso pode parecer simples, mas não é; tais itens ainda são materiais indispensáveis à arquitetura de uma grande história. Deixam de lado as supostas inovações , tolices que vão dos quebra-cabeças sem sentido de Osman Lins e seu Avalovara, às frases sem pontuação de Saramago onde,nesses casos, a história torna-se aspecto secundário. Formalismos à parte, William Kennedy e Siri Hustvedt contam histórias, sabem contar, de maneira cativante e surpreendente.
Idas e vindas são marcantes nos dois romances. Agregam ficção à vida e com sutileza adentram em questões significativas da existência humana. A relação pai/filho, Billy e Francis; Edward e Martin, na história de Kennedy. Erik, Inga e Lars, pelo lado de Ustvedt. Acrescente-se o tom investigativo, o suspense, as sinuosas pistas oferecidas . Nem sempre confiáveis. O leitor se torna o grande vencedor.
==> O grande jogo de Billy Phelan é uma tradicional história de gângster, do submundo do jogo e das “peculiaridades” do poder. Nada fora do lugar , porém sem a costumeira previsibilidade que exige a luta do bem contra o mal. Aqui o bem, caso exista, usa disfarce.
Tradição e modernidade não se chocam no texto de William Kennedy, unem-se na tarefa de contar a história de Billy Phelan, o jogador, que vive a dizer: “Billy sempre paga suas dívidas.” E de aposta em aposta a vida de Billy transcorre sem maiores atropelos, no ritmo dos bem quistos. Até o dia em que solicitado a atuar como informante, diz não ao papel. Fecham-se as portas, Billy não tem onde beber e jogar. Resta-lhe a solidão, agora mais acentuada. Não, paciente leitor, você não encontrará cenas de amor, de encontros, O grande jogo de Billy Phelan é um livro seco, frio,sem espaço para remissões. Aqui tudo é contido, impera a tensão, o suspense silencioso.
Exemplo: Charlie Boy, o garoto da família McCall é seqüestrado. A ação não é descrita. Nenhum tiro é disparado, tampouco na libertação onde a aparição, na janela de um carro, de dois canos de uma espingarda, constitui a maior violência.
Aparentemente simples, se ficarmos apenas com a história de Billy, no entanto complexa, precisa, se atentarmos aos aspectos da política, da corrupção e da miséria que cerca a existência humana.
Outros pontos em comum: a presença de imigrantes, noruegueses em Desilusões..., irlandeses em profusão em O grande jogo...o caderno do pai de Martin em O grande jogo... O diário do pai de Erik em Desilusões... A importância dos sonhos nos dois romances. O cunhado de Erik, escritor e roteirista de cinema, o pai de Martin, autor de peças teatrais. Em ambas histórias atrizes desempenham importantes papéis na trama. Hustvedt e Kennedy descrevem o cenário, mas merece destaque a forma como Kennedy o faz, sempre durante caminhadas dos personagens. O movimento não cessa, nem mesmo naquilo que a tradição apresenta como algo estático. As doenças dos pais de Erik e Martin, as recordações, a guerra. Da guerra, a semelhança das cenas, fortes, mas sem apelar para o exagero nas descrições. A ação de O grande jogo ...ocorre nos anos da grande depressão americana, nas memórias de Lars várias referências a essa mesma época em Desilusões...Investiga-se um seqüestro em O grande jogo...procura-se descobrir a identidade da autora de uma carta, em Desilusões...Um pai deixa cair um bebê em O grande jogo...em Desilusões um pai se distrai e a filha cai pela janela do apartamento.
Memória e realidade se fundem nos dois livros, Martin tem muito de Kennedy que também foi jornalista. Hustvedt utiliza anotações de seu pai morto em 2003.
Desilusões de um americano é um romance de idéias, de cunho autobiográfico. Memórias, problemas familiares, o não dito, o não acontecido. Aqui o mal se dilui nas frustrações.
Na trama de Ustvedt o jogo também está em cena, na forma de um quebra-cabeças, ou melhor, de dois quebra-cabeças. A existência de um caderno de memórias do imigrante norueguês Lars, pai de Érika e Inga. Ali encontram-se os relatos de sua chegada aos EUA, de sua participação na segunda guerra mundial, e um mistério. Remexendo os papéis do pai, os irmãos encontram a carta de uma certa Lisa. A mulher pede que Lars silencie sobre a morte de uma pessoa, também desconhecida. Durante o périplo investigativo, Inga e Erik estabelecem diálogos, instigantes ao leitorcurioso, acerca de filosofia, neurociência e psiquiatria. Mais um atrativo de Desilusões de um americano.
Dois passados que precisam ser montados, criados, recriados talvez, o do pai do psicanalista Erik Davidsen, uma morte precisa ser esclarecida, e o do cunhado de Erik, o roteirista Max Blaustein, uma vida- um filho fora do casamento- precisa ser admitida.
==> Vale chamar a atenção para dois aspectos: Desilusões de um americano é narrado por uma voz masculina. Segundo ponto;personagens femininas, no mínimo estranhas, para não dizer atormentadas.
Inga traumatizada pelo terrorismo do 11 de setembro, tenta seguir em frente após a morte do marido, mas tem uma filha adolescente e seus problemas e não bastasse isso ainda é perseguida por uma jornalista interessada em vasculhar a vida do falecido.Miranda, inquilina de Erik, não consegue cortar os laços com o psicopata pai de sua filha. Mas, em se tratando de mulheres “estranhas” ainda resta uma atriz e o que seria uma drag-queen instantânea.
Mas os personagens masculinos não são nenhum exemplo de equilíbrio; Erik parece não se abalar por nada, emoções não são seu forte, Jeffrey Lane, ex-marido de Miranda, pode ser chamado de psicopata,Max teve filho fora do casamento,Burton e o amor platônico por Inga.
==> Embora todos esses atrativos citados, o personagem mais marcante de ambos romances é a solidão. Solidão que no cenário de incertezas desenha novas realidades.
A solidão de Martin, o jornalista, a solidão de Billy Phelan, o jogador, abrandada por sua suposta liberdade, independência, desapego.Perder ou ganhar, o importante é jogar.A solidão de Francis, pai de Billy, que abandona a família após deixar cair e morrer seu outro filho ainda bebê. O mesmo Francis que tempos passados matara um condutor de bonde com uma pedrada. Logo fugiu da cidade.Não tardou a voltar e ficar por outros quinze anos. Ao comentar os dois acontecimentos: “É” , disse Billy. “Até dar um jeito de matar outra pessoa.” A solidão de Melissa, a atriz, que, apesar da idade,pode comparar os dotes de Martin e de seu pai, o dramaturgo Edward Daugherty.
A solidão de Francis, a mesma solidão de Billy,igual a solidão de Martin, a solidão de Edward, a solidão do abandono.
A cicatriz da solidão na figura do seqüestrado Charlie Boy.
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Em Desilusões de um americano, a solidão de Erik, morte do pai e fim de seu casamento. Sente-se atraído por Miranda, sua inquilina, mas a história não progride. À irmã, Inga, filósofa, escritora; além da morte do pai, a morte do marido Max Blaustein. A fama do marido oprime e isola essa mulher que parece “suportar a vida.” A solidão como testemunho histórico e social.
A ação permanente dos acontecimentos, o que se deu não se desfaz tampouco é esquecido.Como o abandono de Billy, a traição sofrida por Inga, a separação de Erik, o gesto assassino de Francis, cenas que se repetem com a capacidade de tornar cada vez maior a solidão. Como faz comigo a cena da morte de minha filha. Solidão, começo e fim.
Desilusões de um americano, além do prazer da leitura, se presta a estabelecer um debate acerca dos conceitos de auto-ficção, autor implícito, autor criador, autor pessoa. Onde começa um e termina o outro? Existem mesmo, além teoria, essas divisões e subdivisões?

Imagens: Internet

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