terça-feira, 8 de junho de 2010

***LITERATURA&ARTE*** _ Mulher, a complexidade de um pé no antigo e outro no contemporâneo


A história das mulheres mostra quantas faces deram a elas, quantos preconceitos e conceitos foram constituídos e preservados em relação a elas, e como o silêncio feminino foi se expressando,se libertando ao longo do tempo.
Pode-se dizer que a mulher conquistou a expansão do seu espaço, mostrando suas funcionalidades e potencialidades tanto na esfera privada como na pública, mas não conseguiu romper definitivamente com as questões do passado, pois elas ainda são atualizadas no presente. É nesse contexto que o feminino cria uma identidade, “um pé no antigo e outro no contemporâneo”, um lado vivencia a geração da própria mãe e outro busca uma geração futura mais justa, esse é o silêncio que ainda não se libertou.
REFERÊNCIAS HISTÓRICAS:
Na filosofia grega o corpo feminino é representado como uma terra fria, seca, uma zona passiva,que se submete à criação, mas não cria, enquanto o princípio da vida, da ação, é o corpo masculino,o falo.
Com o cristianismo a Eva é a representação da mulher, vista, portanto, como pecadora e como aquela que desperta para o mal, para a subversão. No Iluminismo além de ser pecadora, algumas mulheres européias, principalmente francesas, eram consideradas feiticeiras por exercer um poder médico, pois se encarregava dos cuidados do corpo, da saúde e da doença, do nascimento à morte, o que as levou a serem perseguidas e condenadas à fogueira.
Esse contexto fez com que corpo feminino se silenciasse,por não terem autonomia na procriação, por reservarem a sua vida íntima, por não obter prazer nas suas relações sexuais, e muitas vezes se calando quando abusadas.
De fato, o discurso médico intensificou esse silêncio das mulheres, condenando
qualquer atividade feminina que não fosse de ser mãe e esposa, considerando o trabalho extradoméstico como um desperdício físico de energia, comprometendo a dignidade da mesma.
Além disso, a medicina acreditava que os ovários e úteros determinavam o comportamento e conduta do feminino; e afirmavam que o cérebro e os ovários não poderiam desenvolver-se simultaneamente, de modo que as atividades intelectuais femininas poderiam prejudicar na formação de um filho.
A modernidade contribuiu para novas práticas corporais; com a higiene, a água, o espelho, a luz elétrica e o desnudamento, os corpos permitiram que fossem vistos e criou-se um hábito e gosto de se preocuparem esteticamente com seus corpos. Os pintores impressionistas retrataram o silêncio, o mistério e a bela do corpo feminino através de suas pinturas e obras.
A Revolução Industrial proporcionou significativas mudanças na esfera pública e privada, o maior emprego individual para as mulheres era o serviço doméstico, e as mulheres operárias eram transformadas em escravas do salário, recebendo menos que o homem pelo mesmo trabalho. Muitas vezes a maioria delas, por viverem somente para o cuidado da casa e dos filhos, o seu corpo reprimido de várias maneiras, expressava certas doenças desconhecidas, associadas às funções reprodutivas, como a histeria e a frigidez.
Dentro desse contexto houve um significativo crescimento demográfico e mesmo com os
preconceitos religiosos, os métodos contraceptivos começaram a ser empregados, principalmente pela classe média. Os métodos referendados eram o coito interrompido, as duchas de água, as esponjas umedecidas com desinfetantes e colocadas no fundo da vagina, as camisinhas de tripa e de borracha e tabelas de controle.
O primeiro movimento sufragista das mulheres, se deu em 1848, com a efervescência do ideal marxista. O movimento reivindicava a volta da mulher ao domínio público, exigindo a plena cidadania por intermédio do voto, da melhoria da educação feminina, melhores oportunidades de trabalho e da ampliação dos direitos legais das mulheres.
Em 1970, as mulheres se mobilizam e criam o Movimento da Libertação da Mulher, colocando em discussão o lema: “Nosso corpo, nós mesmas”, o corpo como centro das lutas públicas;questionando a imposição dos papéis familiares, a obtenção do prazer e o controle da natalidade, e seus direitos reconhecidos socialmente. O silêncio querendo ser vencido. Mas essa luta ainda é um processo que não foi concluído, pois atualmente as mulheres ainda continuam ganhando salário inferior pelo mesmo trabalho, em relação aos homens.
Todas essas dimensões das mulheres, desde a figura da Eva até as mulheres emancipadas,interferem de alguma maneira no subjetivo feminino atual.
Observa-se que durante a infância, tanto as meninas quanto os meninos estão expostos a diversos fatores culturais que colaboram para a formação de sua identidade sexual. A educação feminina é tendenciada para a esfera privada, tendo por base os contos de fada, as brincadeiras relacionadas com o cuidar da casa e das bonecas, transmitindo a idéia do que é ser mulher, norteando suas condutas e pensamentos.
É ensinado, portanto, uma feminilidade culturalmente aceita, baseada na passividade, na repressão da curiosidade sobre o seu corpo, estimulando a agradar e a se embelezar para atrair os olhares alheios, como uma verdadeira boneca viva, fazendo-se objeto, recusando,consequentemente, sua autonomia e liberdade.
São essas questões enraizadas no subjetivo das mulheres que se confrontam diretamente com as lutas e conquistas que foram alcançadas nos anos 70. Ainda hoje, mesmo observando a presença feminina nos espaços públicos, nas faculdades, nos esportes, há uma exigência diferenciada para a sua realização nas atividades, perdoando-as mais que os homens, “querendo, pelo menos, que ela
seja também uma mulher, que não perca a feminilidade”.
Essa ambivalência é existente cotidianamente no pensamento e no comportamento das mulheres: o ideal feminino ensinado na infância e a mulher emancipada e independente que a sociedade prega. Constituir uma família, cuidar do lar, dos filhos e do marido, ou construir uma carreira profissional de sucesso.
Nesse entrave a maioria das mulheres busca realizar todas as atividades que esperam dela, faz sua função biológica materna e a função pública. Mas será que no meio desse polifuncionalismo as mulheres se libertaram realmente?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: A experiência vivida; tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963
MATOS, M. I. S. Delineando corpos: As representações do feminino e do masculino no discurso médico (São Paulo 1890-1930). O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP, 2003, p.107-127
PERROT,M. Os silêncios do corpo da mulher. O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP, 2003.
SEIXAS, A.M.R. Sexualidade feminina: história, Cultura, Família, Personalidade e Psicodrama.São Paulo: Editora SENAC, 1998.

Imagens:Internet

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